Terça-feira, Maio 31, 2005
exorcismo
Durante muito tempo Curitiba foi para mim uma espécie de palco para uma ópera de horrores, meus bons e velhos amigos e inimigos sabem bem do que falo. Era algo como um amor desencarnado, uma viagem abortada, uma grande, imensa história mal contada, mal resolvida, mal vivida de anos, meses, dias. De quilômetros, metros, horas, minutos, segundos em frações de kb. História de solidão, de frio e de esquecimento. Até que um dia o vento sul que sopra do alto da capital mais alta trouxe um cheiro diferente de mudança para Minas: naquele final de semana não choveria em Curitiba, contrariando toda e qualquer previsão. Faria sol. Um, dois, três, quatro dias lindos, limpos, mais doces do que goiabada com queijo.
E Curitiba para mim foi:
Pinhão na chapa do fogão à lenha
Música inca
Esquilo no quintal, paca no parque, pé de pomba
Música inca
Pierogi
Música inca
Oito litros de chopp
Música inca
Morrer de rir
Música inca
Museus, teatros, parques, bosques e feiras
Música inca
Ópera de Arame, Pedreira Paulo Leminski e Jardim Botânico
Música inca
Plá
Música inca
Buteco alemão, polonês, italiano, ucrâniano e mineiro
Música inca
Eu andaria todos os milhares de quilômetros novamente só para ouvir a Paulina me contando que noite passada, nos seus sonhos, ela estava lavando as cuecas do Mussum. Ou para ouvir Inca Hits, em qualquer bar, em qualquer esquina daquele lugar. Definitivamente: eu amo aprender novos caminhos.
Sugestão de viagem: Uma vez em Curitiba, leve um livro para ler na Pedreira Paulo Leminski, não vá de salto à Ópera de Arame, não crie grandes expectativas com a estufa do Jardim Botânico, coma uma batata suiça no Beto Batata, compre um casaco de couro branco com pele de coelho cor-de-rosa, beba umas cervejas com os amigos no Pier do Parque Barigui (Birigui?!?) vendo o pôr do sol, passeie pelas ruas de Santa Felicidade, mas não coma naqueles rodízios enlouquecedores, faça o caminho de João e Maria no Bosque Alemão, tome uma sopa de beterraba no restaurantezinho polonês do Jardim do Papa, compre um cd do Plá na Feirinha do Largo ou na Rua XV, veja a Rua 24 horas de dentro do vidro do carro, coma e beba bem no Sheridans (gans) Pub ali na Batel, nunca peça uma comida mineira, como caldo de feijão, achando que está em Minas, aproveite para conhecer a maior comunidade Inca do mundo, nunca pense que vai voltar para casa depois das quatro, agasalhe-se e divirta-se.
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juli morré
7:05 PM
Passo a bola:
Terça-feira, Maio 24, 2005
Às vezes eu acho que uso às vezes muitas vezes. Mas só às vezes.
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juli morré
10:21 PM
Passo a bola:
Eu acredito em amor à primeira vista. E em paixão à segunda olhada. Acredito ser possível conhecer melhores amigos de infância em mesas de bar. Acredito que é possível ser feliz para sempre, ou até que morte nos separe. Eu acredito na fidelidade e no respeito. Acredito que sonhos são para ser realizados, e não dormidos. Eu acredito que as pessoas erram e merecem, sim, uma segunda chance. Acredito que aquele que errou pode acertar da próxima vez tanto quanto aquele que acertou pode errar. Acredito que a fé move montanhas, mas, mais importante do que isso, move o homem e o torna capaz de movê-las. Eu acredito que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar, embora isso pareça improvável. Eu acredito nas pessoas só por acreditar, e, por elas, desaprendi a desconfiar. Eu acredito na minha intuição e também que conselho de mãe nunca falha. Eu acredito que estar distante é bem diferente de estar ausente e que em coração a gente não manda. Eu acredito que dinheiro não compra felicidade, mas compra um monte de coisas que nos fazem felizes. Eu acredito que o tempo é o maior inimigo do homem, mas igualmente seu maior aliado. Eu acredito que quem fala demais dos outros não tem tempo de pensar em si mesmo. Eu acredito que querer é poder. Eu acredito que já me enganei e que daquela vez foi sempre pior do que agora. Eu acredito em céu e inferno, na vida e na morte.
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juli morré
10:17 PM
Passo a bola:
Vocês já estiveram em uma situação na qual não sabiam o que fazer? E o que vocês fizeram?
Às vezes paiece que tem um buiaco no meu peito.
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juli morré
9:30 PM
Passo a bola:
Segunda-feira, Maio 23, 2005
E porque eu vou para Cutipa, uma overdose de Leminski:
que tudo passe
passe a noite
passe a peste
passe o verão
passe o inverno
passe a guerra
e passe a paz
passe o que nasce
passe o que nem
passe o que faz
passe o que faz-se
que tudo passe
e passe muito bem
incenso fosse música
isso de querer
ser exatamente aquilo
que a gente é
ainda vai
nos levar além
coração
Quem nasce com coração?
Coração tem que ser feito.
Já tenho uma porção
Me infernando o peito.
Com isso ninguém nasça.
Coração é coisa rara,
Coisa que a gente acha
E é melhor encher a cara.
epitáfio para o corpo
Aqui jaz um grande poeta.
Nada deixou escrito.
Este silêncio, acredito,
são suas obras completas.
epitáfio para a alma
aqui jaz um artista
mestre em desastres
viver
com a intensidade da arte
levou-o ao infarte
deus tenha pena
dos seus disfarces
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juli morré
9:15 AM
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Sexta-feira, Maio 20, 2005
espírito olímpico
Vim, vi e perdi. Também, não tenho muita experiência com cabo de guerra. Na verdade, não tenho praticado depois que minha irmã mudou-se para São Paulo.
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juli morré
5:42 PM
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Quarta-feira, Maio 18, 2005
Daqui uma semana: Curitiba. Aceito sugestões e companhias para as noites frias.
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juli morré
4:57 PM
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Segunda-feira, Maio 16, 2005
Às vezes eu não entendo, só sinto.
Às vezes eu não escrevo, só falo.
Às vezes eu não reclamo, só solto.
Às vezes eu não ouço, só faço.
Às vezes eu não penso, só choro.
Às vezes eu não grito, engasgo.
Às vezes eu penso que tudo seria diferente se eu fosse diferente.
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juli morré
5:41 PM
Passo a bola:
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto - para não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente - e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia [...]
Vinícius de Moraes
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juli morré
9:38 AM
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Domingo, Maio 15, 2005
O verdadeiro egoísta não tem tempo nem para dizer que você está errado, ele está preocupado demais com sua própria infalibilidade.
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juli morré
10:05 PM
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Sexta-feira, Maio 13, 2005
toda bola é redonda, e todo mundo gira
Às vezes eu penso em como seria morar do outro lado do mundo. Será que seria apenas virar minha vida de cabeça para baixo?
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Carlos Drummond de Andrade
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juli morré
8:50 AM
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Quarta-feira, Maio 11, 2005
dísdico despretencioso
São Gabriel, São Francisco e São Nicolau,
muito obrigada por tirar vovó do hospital!
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juli morré
11:08 AM
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Domingo, Maio 08, 2005
mãe só tem duas
Um poema de Drummond pergunta por que Deus permite que as mães vão-se embora. Chama-se Para sempre. Mãe não deveria morrer, é estado de graça. Está escrito lá. Eu pergunto a Deus por que Ele permite que além das mães leve o tempo as avós? Se mãe é tempo sem hora, casa de vó é infância eterna. Plagiando minha amiga Paula, avó é nossa mãe de açúcar. É fruta no pé, é gato pela casa, é esperar Papai Noel atrás da porta, é comida no fogão de lenha, é galinha no galinheiro, é bala de caramelo depois do almoço, é achar semelhança nos retratos das tataravós, é jantar seis horas da tarde, é o melhor bife com arroz feijão batata frita tomate e cebola do mundo, é carinho desmedido e incondicional. Naquelas rugas muitas vezes detive os olhos a imaginar histórias. Inventava passados heróicos, grandes fazendas de café, vestidos de renda importada. Aqueles longos cabelos brancos que escorriam pelas costas carregavam o peso de seus 98 anos. Durante muito tempo Cemiquinha era como me chamavam: Geniozinho forte tem essa menina, não? E os cabelos anelados da avó. Dona Miracema não era bonita quando jovem, aliás, isso era das coisas todas talvez a que mais me perturbava. Eu ainda não entendia o amor (isso se é que hoje o entendo) para saber: como é que meu avô, lindo de morrer, foi se casar com vovó. Não é difícil de entender quando se conhece aquela mulher. Não é difícil de entender quando se ouve sobre ele. Não é difícil de entender quando a gente pensa no tamanho da vida. Hoje, Dia das Mães, eu queria homenageá-las, mamãe e vovó, duas grandes mulheres, meus dois grandes exemplos, pedaço disso que sou. E da mãe e da avó que, espero, e quero, serei um dia.
Este post é uma forma de nunca esquecer minha vó, que sexta-feira, dia 06 de maio de 2005, foi internada no hospital quase em coma, e uma forma, agora menos triste, de dizer eu te amo à ela, à Dona Vanda, Vó Marta, Dona Terezinha, Maria José, Nádia, Ju Brêtas, Silvitia, Jaqueline, Tia Célia, Tia Fátima, Tia Liege, Tia Mires, Tia Giselda, Tia Isa. Mãe é gostar de graça, é estado de graça.
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juli morré
10:19 AM
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Sábado, Maio 07, 2005
A inexorabilidade do tempo, tão difícil de falar como de compreender.
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juli morré
10:04 AM
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Sexta-feira, Maio 06, 2005
Às vezes, se batalha, horas se passam diante da página vazia que reflete a imaginação estéril. Às vezes, como Flaubert, você gasta a manhã inteira para colocar uma vírgula, e a tarde toda para retirá-la.
Lawrence Block, Cidade pequena
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juli morré
9:10 AM
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Terça-feira, Maio 03, 2005
spleen
Mal do século: se eu tivesse nascido em 1800, talvez eu fosse a última romântica. De qualquer forma, passei o dia inteiro sonhando com as minhas idealizações.
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juli morré
8:40 PM
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