Domingo, Junho 27, 2004
Ele chegou quando eu havia acabado de chegar. Quando eu o vi pela primeira vez eu quase tive certeza. Quase porque tantas vezes eu pensei que tivesse, ou queria ter, e não tive. Há muito que essa sensação se afugentara de mim. Se eu precisasse explicar para alguém o que senti naquele momento, diria que fui tomada por uma imensa vontade de fazer planos, e seria essa uma definição perfeita. Ontem eu acordei, cansada de esperar o telefone tocar outra vez, mais uma vez, e fui fazer a realidade dos meus sonhos discutida em uma sala de cinema, sem pipoca. Você vai gostar de conhecer a Fnac da Paulista, a Cultura, o Itaú Cultural. Preciso ir à exposição de Picasso. Fui. Fui. Fui. Hoje vou rever Picasso. Passar horas, sozinha, de novo, cara a cara com "O Beijo". Foi apenas um telefonema. Foi apenas uma noite. Tento me consolar. Vou fazendo o caminho inverso, como se já não fosse doloroso o suficiente a perda em si. Fui trilhando por mim mesma, com meus próprios pés, os caminhos dos nossos sonhos. A cada passo eu me sentia menor. Cada vez mais pequena no meio da crescente multidão. Sim, eu era mais uma. Não haveria de ser diferente (eu sou diferente). Pessoas têm mania de generalizar: quando sofrem demais ou quando amam demais vira hábito e cada caso deixa de ser o caso, passa a ser só mais um, engrossando a massa amorfa de todos iguais. Sempre sozinhos. Sempre juntos. Olhei para o céu, como gosto de fazer quando saio andando e despretensiosamente pensando pela rua. Acendi um cigarro e quis, muito, que meus pensamentos se estendessem até ele. Aquário. Antes eu quis aprender a dizer na verdade o que eu sinto, na hora em que sinto. E eu o teria feito na calçada, no carro, na mesa com a comida posta, no elevador. Ao telefone. Eu queria saber o que dizer. Como não sei, penso às vezes que sei escrever. E escrevo. Pensei em uma carta. Um bilhete. Um post-it. Não saiu do pensamento. Mandei um e-mail e comprei um livro, ainda não tinha me acostumado com a idéia de que eu precisava esquecer todas as coisas das quais talvez ele pudesse gostar. E os dias foram acontecendo bem diferentes daqueles que havíamos planejado. E as pessoas foram ficando cada vez mais tristes nas ruas de São Paulo. Fiquei muda e não consegui dizer para ele que algumas mulheres amam de verdade. Consegui chorar. Senti-me culpada, sem perceber que antes mesmo de eu reconhecer minhas limitações ele já havia tapado os ouvidos. Ser querida é ser quase nada, pelo menos nada do que eu queria ser agora. Fosse eu sua mulher agora... O livro que comprei, a dedicatória que não escrevi, as palavras que eu não disse e as poucas palavras de um e-mail que veio e ficou sem resposta estão guardados embaixo da minha cama, seguramente embalados com plástico, protegidos contra a água das lágrimas. Talvez fiquem aí até semana que vem. Talvez fiquem aí para sempre. Talvez essa minha vontade de falar e ser ouvida nunca chegue até ele. Talvez ele saiba de tudo isso antes mesmo de existir, dentro e fora de mim. Talvez eu seja uma tola. Talvez isso seja apenas amor.
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Juju
8:41 AM
Passo a bola:
Quinta-feira, Junho 10, 2004
E para quem quer saber como é a vida em São Paulo, é mais ou menos assim:
Eu nunca tinha andado de metrô, não que eu me lembrasse, mas aquela eterna e constante eminência do perigo me fascinava. Estupros aterrorizam os trens urbanos de São Paulo. Assaltos e vandalismos acontecem no metrô. Pode ter sempre uma bomba escondida em algum lugar. No metrô, senhoras gordas e homens velhos vão ao trabalho. As crianças passeiam de metrô. Em cada assenti duplo um rosto sozinho, como uma casca. As pessoas não dormem, mas parecem sempre sonâmbulas. Neblina no barulho metálico, férrico, tétrico dos trilhos. A cidade não dorme, mas também nunca acorda. As pessoas fecham os olhos e eu fico brincando de adivinhar imaginando o que devem estar pensando. Eu, que nem tenho cama.
E no fim das contas...
... o coração fica sempre apertado.
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Juju
5:57 PM
Passo a bola:
Às vezes, até eu mesma sinto saudades de mim. Com essa mudança para São Paulo, acabo mudando eu também. Algumas coisas vão, outras ficam, mas minha paixão pelo Sidnei Magal continua intacta. Esta semana o Pedro me mandou um folder escaneado e por ele fiquei sabendo do show "arrasa corações" em Belo Horizonte. Sem mim?!? Jamais! E aqui estou eu. Juju, Gretchen e Magal. É mole, ou quer mais? A vida precisa de poucas coisas para ser divertida, uma delas é viver.
postado por:
Juju
5:41 PM
Passo a bola: